O trabalho se constitui como uma dimensão muito importante em nossas vidas. Passamos boa parte de nosso dia nele, convivendo com diferentes pessoas e exigências de toda ordem. Além disso, é por meio do trabalho que muitos de nós se viabilizam como sujeitos em sociedade, e podem viabilizar seus sonhos, como ter a casa própria, constituir família, viajar, estudar, além de realizar uma atividade que gosta e sente prazer. Quando inseridos numa organização, fazemos parte de um ambiente com certa cultura organizacional, que compreende as relações de trabalho de uma certa maneira ou de outra, possui uma dada missão, ou objetivo, certos valores, mesmo que não estejam muito claros ou explicitados a todos.
Uma das características do mundo contemporâneo é a urgência nas coisas, o imediatismo, inclusive nas relações. Vivemos em um mundo onde a informação chega cada vez mais rápido, acelerando as transformações econômicas, culturais, científicas, tecnológicas, etc. Precisamos trocar de aparelhos eletrônicos, por exemplo, com maior frequência, já que com o passar do tempo (um ou dois anos) eles começam a ficar obsoletos, sem atender às exigências desse mundo cada vez mais rápido.
O mundo das organizações, é claro, acompanha as mudanças da sociedade em geral, e tem se caracterizado por uma exigência de comprometimento e identificação dos trabalhadores com o ideal organizacional, o famoso “vestir a camisa”, ao mesmo tempo em que se exige o cumprimento de metas cada vez mais difíceis, colocando, muitas vezes, os trabalhadores em competição entre si em uma organização. É preciso ser cada vez mais eficiente, produtivo, ágil, antenado, disponível.
Esse ambiente de alta exigência coloca os trabalhadores em situações de pressão que podem provocar conflitos interpessoais, além de ansiedade, cansaço físico, insônia, irritabilidade, entre outros, levando ao estresse crônico, ao esgotamento físico e emocional, e ao burnout. Esse processo tem reflexos nas relações familiares, na saúde (tanto física quanto emocional) dos trabalhadores afetados, que cada vez mais ficam preocupados em atingir metas impostas, em dar tudo de si à organização, dado seu comprometimento com ela.
Com o passar do tempo esses trabalhadores podem experimentar um desapontamento muito grande, tristeza profunda, alterações de humor, e uma mudança muito grande em sua relação com a organização, que deixa de ser um lugar de viabilização de sonhos e de convivência com pessoas que possuem os mesmos ideais. As pessoas começam a perceber os prejuízos pessoais provocados por essas situações na organização, no conjunto de sua vida, o que leva a experimentações de frustração, ou desilusão, além de questionamentos quanto ao pertencimento àquele grupo de trabalho. Fica cada vez mais difícil conciliar trabalho, família, lazer, descanso.
Dessa forma, é importante que o trabalhador tenha presente quais os limites da empresa, do momento econômico-financeiro que vive, identificar se as metas e/ou tarefas colocadas são possíveis ou se exigem muito além do que essas condições permitem. É preciso se dar limites para poder viver os momentos de descanso e distanciar-se do trabalho nesses momentos de lazer e de convívio com amigos e familiares, não deixando a pressão do trabalho interferir em todo o conjunto de sua vida.
Caso se verifique necessário, antes de chegar a uma situação limite, é importante buscar apoio de um profissional, médico ou psicólogo, que ajude a resguardar a saúde física e restabelecer a condição emocional do trabalhador.
Dica de leitura:
Castro, Fernando Gastal de. Fracasso do projeto de ser: burnout, existência e paradoxos do trabalho. Rio de Janeiro: Garamond, 2012.